A resposta está não apenas na retórica conspiracionista dos terraplanistas, mas numa série de mudanças sofridas pelos meios de comunicação nas últimas décadas.

 

Por Rodrigo Quinam

 

Este artigo foi publicado originalmente no portal do Brasil 247.



Era o melhor dos tempos, era o pior dos tempos. No século passado, a vitória da Ciência como pensamento racional legitimado, autoridade máxima sobre a verdade, parecia incontestável. O homem havia rompido a fronteira final e pisado na Lua, a vacinação aumentava a expectativa de vida em décadas, testes de DNA impactavam a sociedade, a psicologia e a psiquiatria prometiam também tratar problemas mentais e até impotência sexual parecia superada com a chegada da pílula azul da sildenafila – a viagra – aprovada para comercialização em 1998. Todo esse desenvolvimento seria consolidado de vez com o lançamento da Internet em 1993, que enfim democratizaria todo o acesso a ele em uma construção, quase utópica, de espaço informacional horizontal, desprovido de hierarquias.

 

Mas na virada do milênio, as esperanças lentamente azedaram como leite fora da geladeira em dia de verão. Um estudo fraudulento, mas codificado na linguagem acadêmica o suficiente para passar pelos pareceristas da grande revista científica The Lancet, apontou vacinação como causadora de autismo e iniciou o impensável: a volta do movimento anti-vacina, versão Era da Informação. Uma série de estudos pagos impulsionou o negacionismo do aquecimento global. A Internet foi de utopia a distopia, democratizando também o caos ao trazer à tona perigosos tratamentos milagrosos (inclusive o da substância MMS, encontrada em alvejantes, para o autismo) dando voz também a uma nova ascensão de movimentos políticos extremistas, antes desorganizados, que resultariam numa ascensão de uma nova extrema-direita pelo mundo. 

 

O mundo parecia de cabeça para baixo e, como uma cereja no bolo, o impensável aconteceu: pessoas voltaram a acreditar que a Terra é plana, uma crença tão deslocada dos tempos modernos que não é possível ser ligada nem mesmo a estudos pagos ou acadêmicos fraudulentos. Canais conspiracionistas surgiam aos montes no Youtube, buscando contradições absurdas como vídeos em aviões que acusavam ver a borda da Terra ou a farsa hollywoodiana, ao melhor estilo “homem na Lua”, produzida em vídeos oficiais da NASA – organização que, para eles, existiria apenas para fins obscurantistas. Com vários destes canais brasileiros, uma pesquisa na Isto É, realizada em 2021, afirmava que um assustador número de 11 milhões de brasileiros acreditam que a Terra era plana. Em 2019, o programa de auditório The Noite, de Danilo Gentili, recebeu o grupo terraplanista Flatcon, divulgando seu primeiro encontro nacional, que seria realizado na cidade de São Paulo para cerca de 400 pessoas. Veículos como a Folha e a Veja também deram atenção aos grupos.

 

Como chegamos até aqui? A resposta está não apenas na retórica conspiracionista dos terraplanistas, mas numa série de mudanças sofridas pelos meios de comunicação nas últimas décadas – e numa notável falta de regulação destes, com permissivas políticas neoliberais em nome de uma suposta “liberdade de expressão” ajudando os terraplanistas e outros grupos extremistas à obterem atenção.

O terraplanismo pelo Globo

A crença em que a Terra é plana chegou a estar presente em séculos de dominância em um mundo cristão de literalismos bíblicos, mas em uma série de revisionismos de historiadores, se acredita que até mesmo a prevalência do pensamento neste período foi exagerada, com a educação de que a Terra é plana praticamente não-existente na história ocidental a partir da Alta Idade Média. 

 

Teorias de que a Terra era esférica, afinal, já existiam em peso desde a Antiguidade, com passagens de pensadores como Platão e Aristóteles argumentando pelo tamanho redondo. 

Estudos pseudocientíficos obscuros seguiram nos séculos seguintes, mas nunca deixando às margens para obter qualquer tipo de relevância. No Séc. XX, o britânico Samuel Shenton, até então uma pessoa comum, se aprofundou em antigos escritos do Arquebispo Stevens (1835-1917) encontrados na Biblioteca Britânica em Londres, instantaneamente se convencendo da ideia. O mergulho de Shenton a um mundo obscuro de literalismos bíblicos e teorias da conspiração o fez fundar a International Flat Earth (1956), mas os anos seguintes não foram favoráveis a organização: a corrida espacial explodiu na década de 1960, com a imagem da Terra esférica vista do espaço logo aparecendo em cada jornal ao lado de temas como satélites e a ida do homem à Lua. Até mesmo a religião abraçou a corrida espacial, com o Papa Paulo abençoando os astronautas do vôo Apollo 11. Nem mesmo os mais reacionários religiosos pareciam dispostos a cogitar o terraplanismo e a organização de Shenton ficou relegada ao ostracismo, nunca passando de 3000 membros. Seu líder faleceu em 1971. Até o fim do século o movimento parecia morto e enterrado, apenas piadas preservando sua memória.

Ressurgindo na globalização

Corta para a virada do milênio: a Internet representava uma esperança utópica de que todo o terreno conquistado pela Ciência seria, enfim, democratizado e tornado acessível à grande maioria da população. “Você”, alcunha para o colaborador anônimo de sites como YouTube e Wikipedia, foi eleito a pessoa do ano da revista Time em 2006, mas a cobertura empolgada deixou passar movimentos que começavam a se (re)organizar nas margens da Web, entre eles o terraplanismo. O Flat Earth Society reapareceu em 2004, lançado como fórum de discussões sobre as teorias, se apresentando como “bem-vindo à crentes e céticos”. Segundo registros do Web Archive, em 2005 o site contava com 388 usuários registrados, com o número chegando a 19 mil em 2009. Em 2021, o fórum ainda existente tem 28 mil membros registrados. Capturas de 2007 mostram a movimentação na plataforma:

O sucesso do fórum levou a criação de um site no mesmo domínio, em 2009. Registrando oficialmente novos membros desde 2001, a Flat Earth Society lançou sua página autoproclamando como “a maior coleção pública de literatura sobre o tema”. Além textos, newsletters e fóruns de discussão, a organização agora contava com uma enciclopédia editável, aos moldes da wikipedia, onde seu coletivo organizaria teorias na sua própria plataforma. O novo líder, Daniel Shenton (incrivelmente sem parentesco com o Shenton original), daria no press release do lançamento do site devidos créditos pela ressurgência: “Tecnologia evoluiu e estamos empolgados de atingir uma grande audiência com nossa mensagem. A Internet é uma ferramenta fantástica para comunicação.” 

 

Os anos seguintes mostraram que nem mesmo sites tradicionais com conteúdo centralizado eram necessários para a propagação de teorias da conspiração como o terraplanismo: plataformas como o Youtube, Facebook, Twitter e Reddit deram ferramentas para mesmo os usuários mais simples produzirem e propagarem conteúdo. Os algoritmos entraram em ação para circular conteúdo entre usuários com interesses em comum, com matérias como How Youtube Radicalized Brazil, no New York Times, analisando seu potencial de conectar usuários comuns ao discurso de ódio. Logo, o terraplanismo estaria desfragmentado, espalhado por diversas páginas e canais nestas redes sociais, alguns grandes e estilizados, outros de alcance médio ou pequeno, com construção mais genérica e pouco destaque midiático – mas integrantes de um enorme exército de colaboradores que pode ser tão ou mais prejudicial. Os canais empacotam o terraplanismo entre outros discursos conspiracionistas, de ódio, de criacionismo e outros literalismos bíblicos.

O grupo brasileiro por trás da Flatcon, por exemplo, conquistou atenção mainstream ao ganhar palco no The Noite, de Danilo Gentili, divulgando o evento denominado “Primeira Convenção Nacional da Terra Plana, que em 2019 reuniu 400 pessoas em São Paulo. Como de esperado, o terraplanismo também marcou presença no bolsonarismo, com o guru Olavo de Carvalho saindo em defesa do movimento.

O problema da regulação

A respostas dos grandes conglomerados de mídias sociais, beneficiados financeiramente com o enorme engajamento gerado pelo conteúdo conspiracionista, foram evasivas: sob a defesa de uma suposta “liberdade de expressão”, que aparentemente protegeria também discursos de ódio, empresas como o Google estrategicamente dão ênfase à alcunha de “plataforma”, tentando transferir a responsabilidade pelo conteúdo aos usuários que o publicaram. Durante momentos distintos nos últimos anos o Google anunciou, de forma vaga, mudanças de políticas de conteúdo no YouTube, com bem publicizadas exclusões de canais como do conspiracionista Alex Jones, fundador do site InfoWars.  

 

Durante 2020, com o Covid-19 e a campanha de Donald Trump repleta de tentativas de deslegitimar a eleição, os conglomerados deram passo a frente na regulação, incluindo avisos com links para Wikipedia ou outros sites informativos ao lado de conteúdo problemático e até mesmo deletando a conta de Donald Trump na reta final das eleições estadunidenses. O regulamento ainda é tímido e mantém tanto conteúdo problemático no ar: o canal Professor Terra Plana, que analisei em um estudo publicado há quase 3 anos, segue ativo para mais de 30 mil inscritos, e diversos canais relacionados formam uma rede de apoio – isso apenas contando o terraplanismo, com diversas outras teorias da conspiração também presentes na plataforma.

É extremamente suspeito que grandes conglomerados como Google e Facebook regulem a si próprios. O The Wall Street Journal, em 2020, apurou que, sob ordem de Mark Zuckerberg, o Facebook favorece a visibilidade de conteúdo conservador. O The Verge apurou, no mesmo ano, que a rede social prejudica o tráfego para veículos progressistas desde 2017. O bilionário teve uma série de reuniões com líderes conservadores nos últimos anos, e parece entender bem o potencial de engajamento que a plataforma tem com esses demográficos. Estes desenvolvimentos revelam que, embora esses conglomerados busquem reputação de cumpridores de dever cívico, com banimentos pontuais e atitudes para inglês ver, o interesse financeiro em conteúdo conspiracionista conservador está entre suas prioridades. Desta forma, é difícil crer que conteúdo pseudocientífico como o terraplanismo, ou mesmo outros discursos de ódio, voltem tão cedo para as margens de onde nunca deveriam ter saído.

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